Uma nova esquerda para o Brasil

Joaci Góes


Tribuna da Bahia, Salvador
19/04/2018 10:34

   

Ao fraternal amigo de sempre, Desembargador Federal Raymundo Pinto!

O título deste artigo foi tomado de empréstimo da palestra que proferiremos no fim da tarde de hoje, na Academia de Letras da Bahia, para os confrades e convidados interessados na matéria que é de gritante atualidade, seja pelo ambiente de confronto perigosamente trepidante em que vivemos no Brasil, seja pela paroxística confusão que se faz entre o que seja direita e esquerda, em matéria político-ideológica. A tal ponto reina a confusão, que parcela substancial das posições defendidas por segmentos da esquerda nacional constituem, na realidade, reivindicações de cunho altamente reacionário, na medida em que promovem o status quo que é prejudicial aos mais pobres, como expusemos em artigos anteriores e aprofundaremos, logo mais. 

Desde os primeiros grupamentos humanos, havia uma esquerda, com outro nome, consubstanciada no protesto dos que estavam à margem dos benefícios auferidos pelos grupos dominantes. O nome esquerda, para designar o movimento reivindicatório dos que estão por baixo na vida social, é que é novo, datando da virada do Século XVIII para o XIX, quando os defensores da Monarquia Francesa, o clero e a nobreza, se sentaram à direita do Presidente da Assembleia dos Estados Gerais, e os artesãos e os burgueses, contrários à Monarquia, se sentaram à esquerda.

A propaganda política, desde sempre, buscou identificar nos adeptos da esquerda os senhores do bem, no combate aberto e desigual aos integrantes da direita, senhores do mal. Pedro e Maria eram pobres porque João era rico, resultado da acumulação da mais valia, usurpada do trabalho alheio, como diz a cartilha marxista. Bastaria, portanto, nivelar os ganhos de todos, independentemente do mérito, para que os males da desigualdade fossem varridos da face do planeta, com a ascensão do proletariado ao topo do comando dos povos, como propunha o socialismo marxista. Com a China e a União Soviética socializadas e mais os percentuais simpatizantes do marxismo, na Índia, na Europa e em países da África, Ásia e América do Sul, o triunfo do socialismo era uma mera questão de tempo, pouco tempo, diante da celeridade das mudanças. Isso sem mencionar os casos de Cuba, Albânia e Coréia do Norte.

No vale-tudo ideológico que se estabeleceu, não havia o menor espaço para a sensatez, nem mesmo quando provinha de algumas cumeadas da reflexão e da sabedoria, como as de Ludwig von Mises e Friedriech Hayek, expoentes da Escola Austríaca de Economia, herdeiros do pensamento liberal de Carl Menger e Eugen Bohn-Bowerk. Os fatos, porém, são teimosos, como ensinou John Adams (1735-1826), o segundo presidente dos Estados Unidos, em frase que Agatha Christie popularizou na busca dos autores dos crimes de seus enredos policiais: “Os fatos são teimosos, e sejam quais forem nossos desejos, inclinações ou os ditames de nossas paixões, eles não podem alterar os fatos e suas evidências.”

Em toda parte, a começar pela queda do muro de Berlin e da implosão da União Soviética, o socialismo, apoiado na substituição da iniciativa privada pelo estado, como detentor dos meios de produção, fracassou, redondamente. A moribunda Cuba e a histérica Coréia do Norte, aí estão para assoalhar a inviabilidade do socialismo marxista. Desde então, a esquerda inteligente, compreendendo que o marxismo naufragara, inapelavelmente, passou a promover os interesses dos escalões de baixo a partir da otimização da ação combinada entre a operosidade da iniciativa privada, como produtora de bens e serviços, com o papel do Estado, como grande agente regulador das múltiplas inter-relações sociais, vigilante na defesa dos interesses dos mais fracos e oprimidos, de modo a lhes assegurar o acesso aos meios necessários ao exercício de uma cidadania plena, respeitado o piso mínimo de acesso a boa alimentação, moradia, educação e assistência médica de qualidade. Todo o primeiro mundo, com ênfase especial para os países escandinavos, sendo a Noruega a madrinha da tropa, exibe o triunfo da elevação social e econômica dos escalões mais modestos da sociedade.

Curiosamente, os segmentos dominantes da esquerda brasileira adotam uma prática colidente com o seu discurso promotor da ascensão das massas.

Isso, porém, já é o cerne do tema da palestra de hoje. 


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