Expectativa e decepção

Joaci Góes


Tribuna da Bahia, Salvador
21/06/2018 08:29

   

Para Ruy Botelho, estadista da crônica esportiva.

Vai longe o tempo em que o povo brasileiro tinha muito do que se ufanar, como queria o Conde de Afonso Celso (1860-1938), em texto famoso de que as gerações mais novas nunca ouviram falar, intitulado Porque me ufano do meu País    (1900). Como motivo de orgulho nacional sobrou, apenas, o futebol - o Penta está aí para confirmar - que ao tempo do intelectual mineiro oscilou entre inexistente e iniciante. Se a derrota para o Uruguai, na final de 1950, foi o momento mais triste, na vida brasileira, o 7 X 1, diante da Alemanha, na última Copa, foi o maior vexame da história do futebol mundial.

Nossos adversários, na fase atual da Copa, apesar de pequenos, do ponto de vista demográfico e territorial, são todos superiores ao Brasil em aspectos fundamentais ao bem-estar das pessoas. A começar pela Suíça, com quem empatamos, país trezentas vezes menor do que o Brasil, territorialmente, e 25 vezes, do ponto de vista populacional.  A renda per capita suíça, porém, é quase cinco vezes maior do que a brasileira. Apesar de pouca chuva, apresenta elevado desempenho agropecuário, base de uma eficiente infraestrutura industrial que excele na produção de sal rochoso, lácteos, fármacos, objetos e máquinas de precisão. Sem falar no chocolate que exporta para todo o mundo, inclusive para países, como o Brasil, que lhe vendem a matéria prima, já que na Suíça não há um cacaueiro, sequer. Com 0,939, seu IDH é um dos mais altos. 

A República Presidencialista da Costa Rica foi descoberta na quarta viagem de Colombo, em 1502, quando era habitada por cerca de trinta mil índios. Só em 1530 os invasores se impuseram aos autóctones, cuja heroicidade assegurou à área o nome de Nova Cartago. Com uma população de cerca de cinco milhões de habitantes, distribuídos num território seco de 51.000 km², a Costa Rica tem costa para o Caribe e para o Pacífico, o que facilita seu acesso aos mercados asiáticos e europeus. Com renda per capita semelhante à brasileira, seu IDH, de 0,776, é um dos maiores da América Latina. É um dos países com práticas democráticas consolidadas, o único da América Latina integrante das 22 democracias mais antigas. Desde 1 de dezembro de 1948, é o primeiro país a tomar a histórica iniciativa de abolir as forças armadas, substituindo-as por uma Força Nacional, para garantir a ordem interna. A Convenção Americana dos Direitos Humanos, de 1969, conhecida como Pacto de São José da Costa Rica, é o principal tratado do sistema regional americano de proteção dos direitos humanos de que é sede. Com 96% da população alfabetizada, a média de vida é de 80 anos. Ocupa o quinto lugar no mundo entre os que mais bem cuidam do meio ambiente, e o primeiro, no Continente Americano. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento considera o aumento da qualidade de vida dos costarriquenhos o melhor entre os países com semelhante nível de renda. No Índice de Competitividade em Viagens e Turismo, a Costa Rica ficou em segundo lugar, na América Latina, superada, apenas, pelo México. Segundo a Fundação Nova Economia (FNE), em 2012, a Costa Rica ocupou o primeiro lugar no Índice do Planeta Feliz, repetindo a classificação de 2009. 

A seleção costarriquenha conseguiu seu maior feito no futebol como a maior surpresa da Copa do Mundo, no Brasil, em 2014, classificando-se em primeiro lugar no grupo D, o mais forte do Mundial, que contava com os campeões Inglaterra, Uruguai e Itália.  Longe está, portanto, de ser cachorro morto.

O último adversário desta fase é a Sérvia, uma República parlamentarista e um dos países culturalmente mais diversificados da Europa. Enquanto o Norte é culturalmente mais próximo da Europa Central, o Sul é mais Oriental. Evidentemente, ambas as regiões influenciaram-se mutuamente, sendo essa distinção um tanto artificial. Seu território ocupa uma área de 88.000 km², abrigando população ligeiramente superior a 10 milhões de habitantes. O IDH, de 0,777, é considerado elevado. 98% da população é alfabetizada. 16,2% da população possui ensino superior, realizado através de 18 universidades, sendo 8 públicas. 

Como Iugoslávia, conseguiu ficar em terceiro lugar em 1930, na Copa realizada no Uruguai, além de quarto lugar em 1962, no Chile. Já na Eurocopa, conseguiu o vice-campeonato em 1960, na França, e em 1968, na Itália, além de quarto lugar em 1976, quando foi país-sede. Também, não é cachorro morto.

Doravante, é o mata-mata, maniqueista. Quem perder, volta pra casa. Se o Brasil não vencer, o jeito é cuidar do que é verdadeiramente essencial, para o bem-estar das pessoas. 

Já não é sem tempo.

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