Um candidato acima de qualquer suspeita

Joaci Góes


Tribuna da Bahia, Salvador
09/11/2017 07:52

   

Em nenhum momento da vida política brasileira viveu-se, como agora, um quadro de tamanha indefinição de nomes para concorrer à Presidência da República, a menos de um ano do pleito.

A divisão da liderança na corrida eleitoral, segundo pesquisas de opinião, entre Lula e Bolsonaro, com os políticos tradicionais aparecendo modestamente, com as exceções de Geraldo Alckmin e Ciro Gomes, reflete o clima de desalento popular derivado do generalizado ambiente de corrupção que infesta o País. Tamanho é o desespero geral, como se depreende da emergência de nomes, até, do show business, que não surpreenderá se o folclórico deputado Tiririca vier a figurar entre os líderes da corrida presidencial. Se algo de criativo e consistente não ocorrer, o Brasil terminará por consolidar o seu famigerado prestígio como o circo do mundo.

É verdade que Lula, entre todos os concorrentes, apesar de ainda aparecer à frente, é o único sem chances de eleição, seja porque será legalmente impedido, seja porque seu grau de rejeição constituiria barreira inexpugnável à renovação de uma experiência que levou o Brasil a beijar a lona. 

Atentos à gravidade do grotesco cenário que deparamos, líderes dos mais diferentes naipes sociais, políticos e econômicos, tendo, em comum, a adesão a elevados valores morais, vêm se mobilizando para encontrar um nome consensual, em favor do qual se realizar uma maratona no campo da comunicação de massa para retirar o País do grosseiro impasse que vivencia, conducente a uma escolha de Sofia, em segundo turno, de um representante do diabo e outro de satanás. 

Este nome é o do Ministro aposentado da Suprema Corte Carlos Ayres Britto. Inteligente, culto e honrado, a biografia de Ayres Britto, como poeta, jurista, professor, advogado e juiz consagra-o como um cidadão-estadista da mais alta qualificação moral e intelectual para governar o País, retirando-o do pântano em que vem chafurdando, em razão do predomínio de forças políticas, da direita e da esquerda, que traíram vergonhosamente a confiança popular. Para além desses elevados atributos, Ayres Britto é festejado, no âmbito da família, dos amigos e de companheiros de trabalho, como um homem verdadeiramente sábio, do que faz prova seu constante chamamento pelos nossos principais meios de comunicação para dar a palavra final sobre temas de candente atualidade e interesse do povo brasileiro. Registre-se que em matéria constitucional, e mesmo de diretrizes políticas, a palavra ponderada de Ayres Britto, nestes tempos temerários que atravessamos, assume caráter oracular, classificação que ele, enfaticamente, desestimula.

 Não há precedente, em nossa história, de um membro aposentado do Excelso Pretório que tenha preservado prestígio comparável ao crescente que desfruta o Ministro Ayres Britto, cujo apoio foi decisivo para que o também exemplar Ministro Joaquim Barbosa pudesse pautar o momentoso processo do Mensalão de que foi o relator. Sem o Mensalão, seria improvável a instalação da Lava Jato. A conhecida decepção de Lula e do PT com o Ministro que saiu dos seus quadros deriva da submissão do ilustre conterrâneo de Tobias Barreto ao princípio que repete como um mantra: -Não se pagam favores com a toga. Os vícios que resultam da excessiva influência do Poder Executivo na escolha dos integrantes dos tribunais judiciários, tão evidentes nos descaminhos praticados por alguns dos seus membros, não foram suficientes para comprometer a fidelidade de Ayres Britto aos mais sólidos valores republicanos.

Ao crescente contingente dos que o pressionam para oferecer-se como uma alternativa decente, à altura das exigências clamorosas do singular momento histórico que vivemos, Ayres Britto desestimula, invocando o gosto com que se dedica às lides do Direito, a mais da tenaz resistência oposta por mulher e filhos. O monalísico sorriso que acompanha suas sempre polidas recusas não é suficiente, porém, para resgatar a shakespeariana dúvida que o assalta sobre se não estaria fugindo ao indeclinável dever de responder afirmativamente ao chamado da Nação, numa quadra tão dramática de sua turbulenta caminhada para o futuro.  


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