A defesa incompleta da negritude

Joaci Góes


Tribuna da Bahia, Salvador
23/11/2017 07:40

   

O transcurso de mais um dia dedicado à Consciência Negra - marcado pela cobrança histórica de atos de reparação das dores infligidas aos afrodescendentes-, pecou pela repetição dos mesmos discursos grandiloquentes, mas vazios de efetividade. Parece, até, que, ao invés de melhorar, a posição dos negros na sociedade brasileira piora, como se infere de algumas estatísticas acabrunhantes, no plano da renda e do exercício de atividades relevantes na hierarquia de vários domínios do espectro social. Por último, veio a público, recentemente, o dado assombroso de que os negros, que representam 54% da população brasileira, integram 71% dos mortos por homicídio, em nosso País.

É tão antiga quanto a Abolição da Escravatura a percepção de que a liberdade formal dos negros não se fez acompanhar de conquistas materiais, indispensáveis ao exercício de uma cidadania plena. Quem lê a tese de doutorado, na Sorbonne, da historiadora grega radicada na Bahia, Kátia Queirós Mattoso, intitulada, Bahia, Uma Província no Século XIX, verifica que o bem estar material dos escravos era superior ao da maioria da população negra do Brasil de nossos dias. Que não nos venha algum debiloide populista inferir desse juízo factual que estamos defendendo o retorno à escravidão. Desejamos acentuar que os negros continuam oprimidos, acima de tudo, porque a ascensão social pela educação não tem sido o elemento de proa de sua epopéia dolorosa, e que a mera denúncia repetitiva dos maus tratos sofridos, com a exigência da necessária punição dos infratores, não tem melhorado sua posição na escala social, um século e vinte e oito anos decorridos da Abolição. 

 Não nos parece, por isso, que o ator americano, Morgan Freeman, tenha inteira razão ao dizer que “O dia em que pararmos de nos preocupar com Consciência Negra, Amarela ou Branca, e nos preocuparmos com Consciência Humana, o racismo desaparece”. Do ponto de vista da realidade fática, mais importante do que o lento desenvolvimento de uma generalizada e incerta consciência humana será a introjeção da consciência de que na sociedade do conhecimento em que estamos imersos, a verdadeira promoção de qualquer segmento populacional - preto, branco, vermelho ou amarelo – só é possível através de uma educação de qualidade, clamor entre pouco ou nada presente na pauta de reivindicação das populações negras do Brasil. A saga vitoriosa do oprimido e escravizado povo judeu é prova disso.

É imperioso que o discurso de defesa da negritude, além da demarcação dos quilombos e do financiamento de blocos afro, passe a incluir a exigência de acesso a educação de alta qualidade - da creche ao ensino universitário-, em nível mais amplo e eficaz do que a bitola estreita do sistema de cotas, como a mais importante de suas reivindicações. O scholar negro Thomas Sowell, reputado um dos maiores intelectuais norte-americanos, autoridade mundialmente reconhecida no campo das ações afirmativas, mostra como se frustra no médio prazo toda conquista de grupos populacionais oprimidos que comprometa critérios meritocráticos. Muito mais eficaz será a substituição do ensino público universitário em vigor, maior fator isolado do aprofundamento das desigualdades no Brasil, já que os ricos são os maiores beneficiários, por um sistema universal de financiamento, com dois anos de carência, a partir da formatura, e pagamento no dobro dos anos de duração dos cursos.

A mais disso, é imperioso assoalhar, como mecanismo legítimo de elevação da autoestima, que os negros não triunfam, apenas, nos esportes e na música. O que a grande maioria não sabe é que nomes tutelares do povo brasileiro foram ou são negros, a exemplo de Cruz e Souza, Gonçalves Dias, Machado de Assis, Lima Barreto, Tobias Barreto, Cora Coralina e Ernesto Carneiro Ribeiro - entre os cultores da literatura; os notáveis engenheiros Teodoro Sampaio e André Rebouças, o libertário Luis Gama - do mesmo padrão de Nelson Mandela-, o incomparável desbravador Marechal Rondon, o psiquiatra Juliano Moreira, o orador sacro Padre Sadock, o geógrafo Milton Santos, o sociólogo Alberto Guerreiro Ramos, e, entre os vivos, o tributarista Edvaldo Brito, o Ministro aposentado do Supremo, Joaquim Barbosa, e a seringalista e política Marina da Silva, para ficarmos nos exemplos de mais ampla nomeada nacional. Só Deus sabe quantos dos nossos jovens negros, tragados pelos pólos ativo e passivo da criminalidade galopante, não estariam integrando essa plêiade de personalidades venerandas, se tivessem tido acesso a educação de qualidade.

A presença de poucos negros em posições de relevo da vida nacional reflete menos a discriminação existente do que o seu baixo percentual entre os concluintes do ensino superior. Quem duvidar que faça as contas.

A experiência universal da sociedade do conhecimento de nossos dias está a clamar a plenos pulmões que a educação é o caminho mais curto, entre a pobreza e a posteridade, o atraso e o desenvolvimento, o estado de barbárie em que nos encontramos e a sociedade próspera e fraterna que aspiramos.


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