Por muito pouco

Joaci Góes


Tribuna da Bahia, Salvador
31/01/2018 22:02

   

Muito mais temível do que todas as doenças que, juntas, ainda nos ameaçam, fruto de nossa imprevidência sanitária, como Dengue, Malária, Lepra e Tuberculose, foi e ainda é, embora sensivelmente reduzido, o risco de nos transformarmos numa Venezuela gigantesca. O providencial impeachment da Presidente Dilma salvou-nos aos 45 minutos do segundo tempo. Como Al Capone, apanhado nas malhas do Imposto de Renda, Dilma Roussef foi punida pelo menor dos seus crimes, as pedaladas fiscais.

Diante dos olhos vendados da confusa Presidente, notabilizada pela impossibilidade quase visceral de exprimir o que pensa, deu-se continuidade à mais descarada e odienta organização para assaltar o Brasil, através do desvio criminoso das riquezas de nossas maiores empresas estatais, para encher as burras de empresários inescrupulosos, em troca de propinas monumentais, para congressistas e membros do Executivo, as maiores de que se tem notícia no espaço e no tempo. Só o fanatismo a serviço da manutenção do poder a qualquer preço pode conviver com a ideia de que Dilma é honesta, enquanto fechava os olhos para o assalto sistemático que se praticava, rotineiramente, na Petrobrás, na Eletrobrás, no Banco do Brasil, na Caixa Econômica, no BNDES e onde quer que houvesse recurso público federal.

O chefe geral dos quadrilheiros, il capo di tutti i capi, como se diz entre os mafiosos, é, fora de qualquer dúvida, o ex-presidente Lula, como se evidenciará ao final de cada um dos inúmeros processos contra ele arrolados, culminando com um acúmulo de condenações que deverão subir a mais de um século, em regime fechado. Nem as indecorosas flexibilidades gestadas na mente de alguns de nossos mais criativos membros das cortes judiciais superiores serão capazes de evitar este necessário e exemplar desfecho previsível. Dilma Roussef é cúmplice necessária de Lula, na medida em que se prestou ao ominoso papel de alcoviteira e marionete, para dar cobertura ao sesquipedal e sistemático assalto ao Erário. De todo modo, é de justiça reconhecer que seu discurso esotérico é preferível ao desastre de uma administração que quebrou o País.

O que salvou o Brasil do inevitável curso suicida bolivariano, coisa de que se fala pouco, foi a tardia decisão de Dilma Roussef de transferir para a Casa Civil toda e qualquer movimentação nas Forças Armadas, como promoções e transferências, a exemplo do que o chavismo praticou na Venezuela, corrompendo, em benefício da ditadura fascista, a vontade dos guardiães da segurança nacional. Ao tomar posse, Temer anulou essa decisão que tornaria as Forças Armadas reféns do voluntarismo populista do petismo ululante. Só isso seria suficiente para torna-lo destinatário da gratidão dos democratas brasileiros.

Levará muito tempo até que possamos nos libertar e recuperar dos malefícios advindos da implantação do espírito bolivariano em algumas de nossas estruturas fundamentais, como a Mídia, a Universidade e segmentos de nossa intelectualidade, cooptados a golpes de patrocínios materiais, no cinema, na música e nas artes em geral. O resultado é o que se vê: temos um dos ensinos mais atrasados, apesar da inquestionável magnitude dos recursos aplicados, como nas universidades federais, a mais cara do Planeta, e nem assim capaz de assegurar a presença de qualquer de suas unidades, em caráter permanente, entre as duzentas melhores do mundo. Recorde-se que o Brasil é detentor de uma das dez maiores economias globais.

O infeliz Haiti, Venezuela e Cuba são os países mais pobres e atrasados do Continente Americano. Haiti e Cuba conseguiram se estabilizar em sua desgraça coletiva. Ao menos, aí, estão livres dos males da obesidade, graças à escassez de comida. A Venezuela, porém, antes uma das mais promissoras nações, converteu-se em mendigo internacional oscilante entre pobreza e miséria extremas. É dever de cada brasileiro acompanhar a insanidade do que ali se passa, rapidamente conducente a uma das maiores tragédias nacionais de todos os tempos.

É desse infeliz destino que, por muito pouco, nos livramos.

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