Esquerdas reacionárias

Joaci Góes


Tribuna da Bahia, Salvador
05/04/2018 07:52

   

 Ao excelente médico George Nogueira Carvalhal, amigo fraterno de toda a vida.

Embora o batismo date da Revolução Francesa, o conceito essencial de esquerda política é tão antigo quanto as primeiras organizações humanas, já que, pelo seu caráter dialético, ser de esquerda significa ser contrário a um status quo que privilegia os interesses de uma minoria, em prejuízo da maioria das pessoas. O marxismo, porém, estreitou o conceito para significar a busca da igualdade mediante a detenção pelo Estado dos meios de produção.

O fracasso de todas as experiências socialistas, a começar pelo monumental colapso do Império Soviético que implodiu como um castelo de cartas, passando pelas tragédias sociais protagonizadas pela Albânia, Cuba e Coréia do Norte, convenceu a humanidade inteligente de que o marxismo só funcionaria se as pessoas fossem robôs, destituídas de valores e sentimentos.  A esquerda inteligente, adaptando-se à realidade irreprimível dos fatos, evoluiu para compreender que só a iniciativa privada é capaz de gerar riqueza de modo autossustentável, cabendo ao Estado o papel de magna agência reguladora, cuja função primordial consiste em assegurar condições de igualdade para todos, na largada da competição pela vida em sociedade, garantido um padrão mínimo de dignidade para os que não conseguem sair do fim da fila, expresso, essencialmente, no acesso a alimentação e moradia adequadas. Defender a continuidade de empresas estatais, como as 147 que ainda restam no Brasil, fonte permanente de ineficiência e corrupção, é postura reacionária, inteiramente contrária ao espírito de uma esquerda que aspire a redenção dos oprimidos. Como aconteceu com todas as empresas brasileiras privatizadas, estas passaram a contribuir, através do pagamento de impostos, com recursos muito superiores aos magros dividendos do tempo em que eram estatais. 

O exemplo máximo dessa nova visão é representado pelos países Escandinavos, dentre os quais a Noruega ocupa a pole position. A poupança pública da Noruega, denominada Fundo Soberano, é da ordem de um trilhão de dólares, correspondendo a duzentos mil dólares para cada um dos cinco milhões de habitantes do País! Estima-se que Cuba, um dos países mais desenvolvidos do Continente Americano, antes da revolução castrista, poderia ser hoje a versão latino-americana do progresso escandinavo, não fosse a tragédia social marxista que sobre ele se abateu, tornando-o o terceiro mais pobre da Região, acima, apenas, do miserável Haiti e da desditosa Venezuela, de marcha batida para o holocausto.

Os segmentos semialfabetizados da esquerda costumam apontar a China como modelo das possibilidades exitosas do Socialismo, ignorando que nos dois mil anos, compreendidos entre os séculos V a.C e XV d.C, o País usufruiu da melhor qualidade de vida do Planeta. Depois de Mao Tsé Tung, o maior assassino da história, seguido de Stalin e, muito abaixo, de Hitler, a China viveu o seu período mais difícil, com a universalização da fome e de carências de toda ordem, cabendo à agricultura familiar clandestina, literalmente, salvar a pátria, com índices de produtividade muito superiores aos alcançados pela emperrada produção estatal. A morte de Mao foi a senha para que, ao lado da escravização da esmagadora maioria do povo, o setor privado passasse a se expandir em escala variável entre aritmética e geométrica. A potência em que a China se transformou é o resultado da combinação de 30% de sua população vivendo plenamente na economia de mercado, com 70% em regime de escravidão, produzindo uma quantidade infinita de diferentes artigos, praticamente sem custos de mão de obra. Puro fascismo!

As esquerdas brasileiras se compõem, essencialmente, de quatro segmentos: idealista, anarquista, oportunista ou carreirista e populista.

Os idealistas, minoritários, representam uma fração mínima. Sua motivação deriva da crença genuína de que o socialismo, não necessariamente construído sobre a detenção pelo Estado dos meios de produção, é o caminho seguro para a eliminação das desigualdades que aviltam os povos. Afinam-se com o papel do Estado como uma grande agência reguladora.

Aos anarquistas, conscientes de sua incapacidade de competir numa sociedade concorrencial, pouco lhes importa que o mundo se acabe, com eles dentro. Segundo pensam, uma Venezuela bem grande é um bom destino para o Brasil.

Os oportunistas ou carreirista dançam conforme a música, e seja quem estiver no poder, a ele hipotecarão sua incondicional lealdade. Há, na Bahia, um conhecido advogado e professor de Direito que de quindins de Yayá do carlismo se converteu em fervoroso adepto do PT, para o qual se bandeou, de mala e cuia, em casa nova.

Finalmente, os populistas, cuja estratégia fundamental consiste em assegurar o máximo da população em estado de carência para facilmente seduzi-la, prometendo-lhe o céu na terra.  Para esse segmento, eleitoralmente, o mais poderoso, pouca ou nenhuma importância é atribuída à educação, único meio verdadeiramente eficaz de redução das desigualdades. O importante, para eles, é aumentar o número dos dependentes de programas sociais.

 A liderança máxima dos populistas, conforme definido pelo Fórum de São Paulo, desde 1990, é o ex-presidente Lula que ontem, mais uma vez, na votação do seu Habeas Corpus, pelo Supremo, contribuiu para instigar, perigosamente, os ânimos da sociedade brasileira, dividindo-a em facções agressivas, pondo em risco a paz social.

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