De estadistas e de populistas

Joaci Góes


Tribuna da Bahia, Salvador
10/05/2018 10:27

   

Ao amigo e primeiro leitor Nelson Carvalho.

No debate promovido pela ABI-Associação Baiana de Imprensa,  no último dia 3, data consagrada à Imprensa e ao Jornalismo planetários, deixamos claro, em nosso pronunciamento de abertura, que os governos petistas de Lula e Dilma foram os mais conservadores da história do Brasil, ao privilegiarem, de modo sem precedentes, os interesses das classes dominantes, em prejuízo da grande massa dos que integram os escalões inferiores da pirâmide social, sem falar na corrupção que protagonizaram, comandando o assalto ao Erário de um modo igualmente sem precedentes na história do Mundo. Não se pode, portanto, sob qualquer ótica, dizer que foram de esquerda esses governos petistas, quando, essencialmente, foram os mais reacionários, no padrão do que se conhece do pior tipo de direita, autoritário e manipulador, dizendo-se, no entanto, de esquerda para enganar os bobos.

Um governo com o mínimo de genuína preocupação com os mais pobres não iria desviar recursos bilionários, oriundos dos impostos pagos pelas pessoas físicas e jurídicas do País, para favorecer grupos econômicos mancomunados com o crime, em lugar de aplicá-los na construção de uma infraestrutura física e social, imprescindível ao processo de redução das ingentes desigualdades econômico-sociais que fazem da brasileira a sociedade mais desigual do Globo Terrestre. 

De fato, impressiona a insensibilidade de quem não se tocou com o drama dos cem milhões de brasileiros que não têm acesso a saneamento básico, (populações da Colômbia, Argentina e Paraguai, somadas) dos quais trinta e cinco milhões (populações da Venezuela e Uruguai, somadas) não possuem, ainda, água encanada. Tragédia sobre tragédia.

Em lugar de se concentrar na solução de problema tão essencial à saúde de brasileiros carentes, em parceria com estados e municípios, o Governo preferiu financiar a infraestrutura de países bolivarianos, como a então Argentina, Bolívia, Venezuela, Nicarágua, Equador, Angola e outros, com o que financiava, também, a fundo perdido, atividades inteiramente divorciadas dos interesses populares e nacionais, sob a seguinte tríplice motivação espúria: 1- alimentar o propinoduto que não cessa de escandalizar a opinião pública internacional; 2- aliciar votos para o Brasil conquistar uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, a ser ocupada por Lula; 3- manter a unidade de pensamento entre os países bolivarianos, criadores, em 1990, do Fórum de São Paulo.

Para que o leitor tenha ideia do significado do saneamento básico para a saúde das pessoas, mencionemos alguns dados. Segundo publicado pela ONG OX-fam, presente em 92 países, inclusive o Brasil, dedicada a apurar, entre outras finalidades, o nível de desigualdade dos povos, o Brasil é o mais desigual país do Planeta. Na grande São Paulo, enquanto os moradores do bairro popular Tiradentes, com precário saneamento básico, têm uma média de vida de 54 anos, os moradores de Higienópolis, com acesso a saneamento de qualidade, vivem, em média, 79 anos.  

O Instituto Trata Brasil, através da pesquisadora Denise Kronemberger, produziu um estudo destinado a estabelecer a relação direta entre várias doenças e nosso deficiente sistema sanitário, tomando como referência os 100 mais populosos municípios brasileiros, entre os anos de 2008 e 2011. Os resultados foram virtualmente lineares entre infraestrutura sanitária e o número de internamentos por essas doenças. Observe-se que não há um município, sequer, entre os de melhor saneamento, localizado no Norte ou no Nordeste, enquanto Vitória da Conquista figura entre os dez grandes municípios com pior saneamento básico, quase todos no Norte e no Nordeste. 

Em Taubaté, São Paulo, município com o melhor desempenho, os gastos com internação por diarréia foram de R$721,00, por cem mil habitantes, enquanto em Ananindeua, município com a pior infraestrutura sanitária, esses gastos subiram a R$314.459,00!  Ou seja: os gastos per capita para remediar a imprevidência praticada em Ananindeua foram 436 vezes maiores do que os destinados à população de Taubaté! É preciso dizer mais para denunciar a criminosa prioridade que os governos petistas deram ao financiamento de infraestrutura no exterior, em prejuízo dos brasileiros carentes? 

Decididamente, dizer que os governos petistas foram de esquerda é revelação de ignorância crassa ou irremediável má-fé.

Bem fizeram os ilustres intelectuais de esquerda, todos doutores em suas respectivas áreas, que participaram do debate promovido pela ABI, em não contestar nossa enfática afirmação de que os governos de Lula e Dilma foram os mais reacionários de nossa história.

Tem razão Winston Churchill: “Político atua pensando na próxima eleição, enquanto estadista pensa na próxima geração”.

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