Mente rica e mente pobre

Joaci Góes


Tribuna da Bahia, Salvador
07/06/2018 08:21

   

Ao Ministro Carlos Ayres Britto, modelo de mentalidade abundante.

A experiência revela que nada impacta tanto a construção da felicidade e prosperidade das pessoas, das entidades e dos povos quanto a natureza da mentalidade dominante, nas relações interpessoais e intergrupais. 

A mentalidade rica ou abundante atua como se no universo houvesse bens e valores ilimitados, ao alcance de quantos se disponham a conquistá-los; ao passo que as pessoas dominadas pela mentalidade pobre ou de escassez agem como se esses bens fossem limitados, razão pela qual buscam obstaculizar o progresso alheio. De acordo com o que supõe essa mentalidade retrógrada, se alguém ganha alguma coisa, outrem, necessariamente, perde igual valor, raciocínio conducente à equação de soma zero, forja da desunião, discórdia e conflitos fatais que levam à pobreza e ao atraso.

Os males que vêm emperrando a vida política, social e econômica do Brasil nascem do predomínio nefasto de uma aterradora mentalidade de escassez que faz com que continuemos a ser, desde sempre, o país de um futuro que nunca chega. O resultado final é que, não obstante as grandes riquezas naturais que possuímos, continuamos a patinar na lama da corrupção, da impunidade e de gritantes desigualdades, incompatíveis com o status de nação moderna que aspiramos ser.

Essa mentalidade de pobreza mendicante potencializa e amplia nossa natural condição humana de homo invidiosus, como sustentou o psicanalista José Ângelo Gaiarsa, no prefácio que escreveu para o nosso livro A inveja nossa de cada dia. A prática política brasileira é a expressão máxima da mentalidade de escassez dominante, segundo a qual não importa o quanto percamos, desde que o nosso adversário perca mais do que nós. Melhor assim, do que ganharmos menos do que eles, ainda que ganhemos bem. As providenciais reformas produzidas pelo Governo Temer, que goza de um dos mais baixos níveis de aceitação popular, não obstante sua reconhecida indispensabilidade, são uma grande prova disso, ao serem retardadas, modificadas para pior, mas sempre implacavelmente atacadas, para grande prejuízo das populações mais carentes. Compare-se o nosso com o comportamento europeu, onde o cerne do discurso consiste em dizer que “apesar das qualidades que nossos adversários possam ter, somos melhores do que eles”. Isso ficou patente na civilizada rapidez com que o Primeiro Ministro espanhol, Mariano Rajoy, foi, recentemente, destituído do posto, poucos dias decorridos da apresentação da moção de desconfiança, por uma acusação que no Brasil soaria como brincadeira de colegial. Ganharam a democracia e a economia do país que segue seu processo de recuperação. No Brasil, ao contrário, a justa reivindicação dos caminhoneiros não encontrou outro meio distinto da paralisação geral que resultou em insanáveis prejuízos gerais, com o agravamento ainda não contabilizado da mais alta taxa de desemprego de nossa história. Isso sem falar na salvadora e constitucional defenestração da omissa Presidente Dilma que os seus comparsas continuam vociferando como se fora vítima de um golpe.

Substituir a mentalidade mesquinha, hoje dominante, por uma postura generosa que a todos enriquece é urgente imperativo de salvação nacional.

Poderíamos começar com o fim da atual, irresponsável e vil estrutura partidária, liberando as candidaturas avulsas para diferentes postos eletivos, sobretudo para a Presidência da República.

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