Vaiar não é crime

Luiz Holanda


Tribuna da Bahia, Salvador
06/02/2018 07:49

   

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ao pretender que a Polícia Federal (PF) investigue quem foi o incentivador das vaias que recebeu durante um voo para Cuiabá, não está fugindo de suas características. Sua excelência sempre processa quem o critica, pois, para ele, a crítica é uma ofensa que precisa ser reparada, de preferência em dinheiro, muito embora, na maioria das vezes (quando ganha a causa), prefira doá-lo a uma instituição de caridade.

Segundo a imprensa, o ministro quer processar os autores das vaias. Como o movimento começou em Portugal, as primeiras a serem processadas certamente serão as brasileiras que perturbaram o passeio do ministro pelas ruas de Lisboa. Ao ser abordado pelas conterrâneas, Gilmar ouviu frases constrangedoras, a exemplo de “O senhor não tem vergonha do que o senhor faz pelo país?” e “o senhor é de uma injustiça imensurável”.

Mesmo não se aceitando esse tipo de crítica, os julgamentos, as decisões e o comportamento de sua excelência atraíram a ira do povo. Ao garantir a impunidade dos corruptos, o ministro se tornou persona non grata para muitos brasileiros, principalmente para os que leem jornais, veem televisão e usam as redes sociais para se interagir.

Independente disso, a proteção dada pelo STF aos corruptos provoca revoltas que animam a população a esculachar qualquer autoridade, principalmente os ministros do STF conhecidos pelo povo como os garantistas da impunidade, a exemplo dos petistas Ricardo Lewandowski, Dias Toffoli, o midiático Marco Aurélio Mello, a frágil Carmem Lúcia e o pupilo de Saulo Ramos, Celso de Mello.

Como o povo acabou perdendo o medo, cenas debochando políticos, magistrados, empresários ligados à corrupção e autoridades em geral se tornaram comuns em nosso país, geralmente expressas pela vaia, que faz parte do nosso temperamento latino.

Segundo o genial escritor Nelson Rodrigues, o brasileiro vaia até minuto de silêncio. Essa tradição vem de longe. A vaia, no folclore popular, teve origem na Grécia Antiga, durante as execuções, que eram recepcionadas pelo povo ora com aplausos ora com vaias, dependendo de quem ia ser executado. Nosso dicionário diz que a vaia é uma demonstração de desagrado, desprezo ou desaprovação.

No caso brasileiro, é de desprezo. O povo, quando se manifesta, é porque já houve algum precedente. Antes desses episódios, Mendes foi hostilizado pelo colega Luiz Roberto Barroso e xingado por torcedores quando assistia a uma partida de futebol no Pacaembu, entre Santos e São Paulo. O vídeo, assim como o da briga institucional, foi parar nas redes sociais.

Nessa ocasião, Gilmar estava no mesmo camarote do presidente do São Paulo, Leco. Quando a torcida percebeu sua presença, sobraram gritos de vagabundo e de outros palavrões, como “Vergonha do Brasil e sai daí corrupto”. Depois, em coro, os torcedores o achincalharam com outros adjetivos.

Por ocasião da abertura dos trabalhos do Judiciário, praticamente todos os ministros foram criticados e vaiados pela imprensa. A única poupada foi a procuradora-geral da Republica, Raquel Dodge, que fez o discurso mais duro da cerimônia contra a corrupção e a impunidade.

O STF é protagonista de incertezas na própria Justiça. Os lances mais sintomáticos da impunidade passam por ali. Ninguém entende, por exemplo, como a nomeação de Lula como ministro da Dilma foi considerada desvio de finalidade pela maioria dos seus ministros e a nomeação de Moreira Franco, como ministro de Temer, nas mesmas circunstâncias, não.

Atuando numa espiral de desconfiança, o Supremo se tornou alvo de suas próprias criações. O povo imagina que em sua jurisprudência já não existe dignidade conceitual ou mesmo retórica. Diante dessa descrença, a única manifestação de desagrado é a vaia, que pode até incomodar, mas não é crime.

Luiz Holanda é advogado e professor universitário

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