Voando com as borboletas

Luiz Holanda


Tribuna da Bahia, Salvador
31/10/2017 10:49

   

No livro A Nuvem, misto de memórias políticas e manifesto de uma vida extremamente rica, o escritor, político, historiador e um dos maiores jornalistas brasileiros, Sebastião Nery, descreve, com a maestria que o caracteriza, a trajetória do seu destino guiado por uma nuvem. Enfrentando todas as vicissitudes, sacrifícios e dissabores, conseguiu galgar a glória dos imortais, sempre andando na frente, pois “é dos pés dos que vão na frente que as borboletas se levantam”.

Uma outra nuvem, igualzinha à de Nery, apareceu em Bertolínia, no Piauí, para guiar o destino de Baltazar Miranda Saraiva, atual desembargador do Tribunal de Justiça da Bahia. De origem humilde, teve de deixar sua terra natal para sobreviver. Viajou, cheio de esperanças, para São Paulo, a única opção dos nordestinos naquela época. Diferentemente de Nery, que parou em Minas, foi direto para a capital paulista.

Lá chegando fez-se carteiro, até que a morte do seu pai o obrigou a retornar à sua terra natal. De lá veio para Feira de Santana, onde trabalhou em diversas profissões, inclusive como Comissário de Menores e Segurança do Tribunal do Trabalho, no qual entrou por concurso.

Passado algum tempo, mudou-se para Salvador, onde fez o curso de Tecnólogo, Administração e Gestão Empresarial na Faculdade São Salvador e o de Bacharel em Direito, na Universidade Católica do Salvador-UCSAL. Em 1986 foi aprovado no concurso de juiz e designado para a Comarca de Itiúba, onde permaneceu até ser promovido, por merecimento, para Paripiranga. De lá andou por diversas comarcas, até ser transferido para Salvador, ápice da carreira de um juiz de primeira instância.

Como se sabe, todo sucesso causa inveja e aversões. Estas podem ser perdoadas; a outra pode ser esquecida. A águia, quando vê aproximar-se a tempestade, segue, com os olhos imóveis, a carreira silenciosa das nuvens. Na vida sempre estamos em movimento, percorrendo um caminho. Um mordaz escritor já disse que acreditar que existe algo estável na vida é crer que pode haver ondas imóveis sobre o mar.

Desde que se tornou desembargador, o Grande Balta, como é carinhosamente chamado pelos colegas, desenvolveu uma extraordinária capacidade de trabalho, dinamismo e dedicação, merecendo o aplauso do mundo jurídico e do social, ao ponto de receber honrosas condecorações, com destaque para as do Mérito Judiciário do Estado da Bahia, do Exército Brasileiro, Thomé de Souza, Comenda Coqueijo Costa da Ordem do Mérito Judiciário do Trabalho e Comenda Ordem do Mérito Aeronáutico (OMA/2017), no grau de comendador. Esta última recebida no dia 23 do corrente, na presença do presidente da República, Michel Temer, com quem teve um encontro no Palácio do Planalto, juntamente com a ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois.

Baltazar foi o segundo presidente da Câmara do Oeste antes de sua extinção. Por ocasião de sua posse nessa unidade do TJ/BA, relembrou os obstáculos que teve de remover do caminho até chegar a desembargador. Para expressar sua força moral, e sua vontade de vencer, utilizou a frase de Nery dizendo que, tal como ele, sempre andou na frente, fazendo as borboletas voarem.

Hoje, vitorioso, respeitado, admirado e reconhecido pela competência, ética, integridade e coragem de desafiar o destino, encontra-se naquela paz reinante que penetra a alma do vencedor, fazendo-o mergulhar na agradável dicotomia em que o corpo se concentra no exercício mecânico das coisas enquanto o espírito se alça, livre, por sobre o panorama eterno da humanidade. Como disse um poeta escritor, é preciso um inverno inteiro para que se formem as flores da primavera... mas elas, afinal, aparecem.

Baltazar sabe que não há motivo para se deixar de querer o que se pretende na vida. Nossos caminhos seriam muito tristes se não fossem a presença distante das estrelas. Ao percorrer seu caminho, soube construir os do futuro, sempre andando na frente, ora fazendo as borboletas voarem, ora voando com elas, que batem as asas sem agressividade, deixando-se levar pelo vento.

Luiz Holanda é advogado e professor universitário


Compartilhe       

 


TRIBUNA VIRTUAL