Temer, o temerário

Luiz Holanda


Tribuna da Bahia, Salvador
03/04/2018 09:56

   

A biografia do presidente Michel Temer está definitivamente marcada pelas denúncias de corrupção ocorridas durante todo o seu governo. Incluído em inquéritos que apuram repasses ilegais de algumas empresas às suas campanhas, Temer testemunhou as prisões de vários companheiros depois que seus nomes apareceram nos documentos apreendidos pela Polícia Federal como beneficiários de propinas oriundas do Porto de Santos.

Ao todo foram 13 prisões temporárias autorizadas pelo ministro Luís Roberto Barroso como parte das investigações que apuram irregularidades nesse setor portuário. Além disso, 20 mandados de busca e apreensão foram expedidos na Operação Skala, um dos desdobramento da Operação Palmos.

Objeto de inúmeras delações, e em razão das acusações contra seus apoiadores e ex-apoiadores (Cunha, Renan, Jucá, Jader, Raupp, Sarney, Maluf, Geddel, Partido Progressista, Paulinho da Força, Roberto Jefferson e outros), Temer não faz outra coisa senão se defender, principalmente depois da prisão de seus amigos mais íntimos.

O PMDB, nos seus 50 anos de existência, federalizou a corrupção. A mistura de interesses públicos com privados é tanta que as castas oligarcas dos setores empresariais, corporativos e financeiros se recusam a deixar de mamar nas tetas do governo. Para essa gente, a continuidade do Estado patrimonialista (toma lá dá cá) com o capitalismo de Estado (sua participação direta ou indireta no lado produtivo da economia), deve ser preservada.

Em setembro do ano passado Joesley Batista divulgou uma nota acusando o presidente de ser o “ladrão geral da República”. Não contente com isso, afirmou que sua excelência não conseguiria se defender dos crimes cometidos. Segundo a nota, “Atacar os colaboradores mostra no mínimo a incapacidade do senhor Michel Temer de oferecer defesa dos crimes que comete”, e que o “presidente envergonha a todos os brasileiros”.

Essa declaração foi dada em resposta à nota do Palácio do Planalto que antecipou a defesa de Temer visando desqualificar as delações do empresário e do operador Lúcio Bolonha Funaro. Em sua defesa, Temer disse que “se resguardava o direito de não tratar de ficções e invenções de quem quer que seja”.

O problema é que essas “ficções e invenções” se avolumaram de tal maneira que já não permitem ao presidente governar em paz. O decreto 9.048/2017, editado por ele, terminou por beneficiar, segundo as investigações, a Rodrimar, a pedido do ex-deputado Rodrigo Rocha Loures - também conhecido como o homem da mala e amigo de Temer. Segundo a Procuradoria-Geral da República, foram atendidas “ao menos em parte, as demandas de Loures em favor da referida empresa”.

O ministro Luís Roberto Barroso, relator do caso, destacou que “Loures teria apontado os nomes de Ricardo Conrado Mesquita e Antônio Celso Grecco, ambos vinculados à empresa Rodrimar, como intermediários de propinas que seriam pagas a ele próprio e ao presidente Temer”.

Para agravar a situação, o folclore brasileiro está associando o presidente a um personagem do jogo de tabuleiro dos franceses denominado “Zumbicide” (jogo de zumbis), vendido no mundo inteiro. O personagem se chama “Conde Temeraire”, um “corrupto feiticeiro das trevas que não está satisfeito em roubar apenas o seu sangue”. A referencia vem da frase atribuída ao senador Antônio Carlos Magalhães quando chamou o presidente de “mordomo de filme de terror”. Coincidência ou não, Temer assumiu o governo numa sexta-feira, 13 de maio de 2016.

Agora a Polícia Federal, que vem se destacando como uma das instituições mais sérias do país (apesar dos deslizes de alguns dos seus membros), tem que provar o envolvimento do presidente com a corrupção no Porto de Santos, pois, do contrário, vai parecer que tudo isso foi armado para impedir sua pretensão de postular um novo mandato presidencial.

Até lá, é temerário o presidente desafiar os fatos sem, antes, comprovar a sua inocência. A prudência manda esperar o resultado das investigações para se envolver numa disputa eleitoral apoiado por auxiliares despreparados e, também, acusados de corrupção.

Depois de passar dois anos de seu governo se defendendo de acusações de corrupção, vai ser difícil sua excelência evitar que sua biografia seja maculada diante de tantas denúncias.

Luiz Holanda é advogado e professor universitário

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