Tudo está no seu lugar

Luiz Holanda


Tribuna da Bahia, Salvador
06/06/2018 05:58

   

Discursando na Igreja Assembleia de Deus, em Brasília, o presidente Michel Temer, após ter sido poupado de uma tremenda decepção pelo pastor, que solicitou aos fiéis que não o vaiassem, pediu que orassem por ele e por seu governo, pois, assim o fazendo, estariam orando pelo país. 

Considerando que Deus, antes de atender a qualquer pedido, geralmente analisa os pecados cometidos pelo pecador - principalmente os mortais-, certamente encontrará alguma dificuldade para julgar, sem isenção, o presidente Temer, principalmente depois que veio a público o resultado das investigações feitas pela Polícia Federal (PF) a respeito do decreto presidencial sobre o setor portuário.

Dos cinco presos nas investigações, três deles são ligados a Temer: o advogado José Yunes, o coronel João Batista Filho e o ex-ministro da Agricultura Wagner Rossi. Os outros dois são os empresários Antônio Celso Grecco, dono da Rodrimar, e Milton Ortolon, auxiliar de Rossi. As ordens de prisão foram temporárias.

As detenções foram autorizadas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso, a pedido da Procuradoria Geral da República. Barroso é relator do inquérito que apura a chamada MP dos Portos, ou seja, a Medida Provisória 595, que deu origem ao decreto 9.048.

Temer é suspeito de receber vantagem pecuniária em troca de benefícios a empresas que atuam no Porto de Santos, como a Rodrimar. Já o empresário José Yunes foi assessor do emedebista na Presidência até a revelação do conteúdo da delação premiada do executivo da Odebrecht Cláudio Mello Filho, também citado na delação do doleiro Dílson Funaro como um dos responsáveis por administrar propinas entregues ao presidente.

Temer, que vive num inferno astral sem precedentes, não foi muito feliz na escolha dos seus auxiliares. Um deles (segundo o jornal O Estado de São Paulo), é o tartamudeante ministro  Carlos Marun, escolhido para explicar, em nome do governo, as providências tomadas para debelar a greve dos caminhoneiros.

Ex-pau mandado de Eduardo Cunha, Marun, em certa ocasião, chegou a ameaçar que poderia voltar à Câmara dos Deputados somente para dar início a um processo de impeachment do ministro Luís Roberto Barroso, que resolveu aplicar a lei ao presidente e a alguns dos seus assessores. Durante as explicações, o desastrado Marun, todo sorridente, dava a impressão de que o presidente já não controlava mais o governo.

Fragilizado e sem autoridade moral para acabar com as paralisações, Temer sequer soube utilizar os instrumentos constitucionais à sua disposição. Em vez disso, assinou o pomposo e inútil decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), cuja sigla parece mais um nome de gás produzido pela Petrobrás do que, propriamente, um instrumento capaz de restabelecer a ordem.

Nem a multa de diária de R$ 10.000,00 (dez mil reais) amedrontou os grevistas. Pelo contrário, alguns chegaram a bater, quebrar os caminhões e mesmo matar quem ameaçou deixar as rodovias, certos de que, ao final, jamais seriam punidos, graças à impunidade reinante no país.

Carlos Marun, como se sabe, era membro da “tropa de choque” de Eduardo Cunha, além de principal artífice das manobras protelatórias para a cassação do mandato do ex-deputado. Foi contra o processo que pedia abertura de investigação do presidente Temer, recebendo, em troca, a Secretaria de Governo. Contra ele pesa uma acusação de desvio de recurso que ele nega, veementemente.

Esse mesmo ministro, por ocasião da vitória de Temer contra o impeachment, na Câmara dos deputados, saiu se requebrando pelo plenário cantando a música de Benito de Paulo “Tudo está no Seu Lugar”. Relator da CPI Mista da JBS, terminou processado por improbidade administrativa quando era presidente da Agência de Habitação Popular de Mato Grosso do Sul (AGEHAB), segundo a imprensa.

Outro ministro sem muita relação com o Congresso mas um grande interlocutor do presidente é Moreira Franco, mantido no cargo de Ministro das Minas e Energia como uma forma de garantir seu foro privilegiado. O terceiro é Eliseu Padilha, por quem o ex-senador Antonio Carlos Magalhães tinha um especial interesse. Daí Temer ter pedido aos fiéis que rezassem por ele, para que tudo fique em seu lugar.

Luiz Holanda é advogado e professor universitário.

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