A escolha certa: na palma da mão

Osvaldo Lyra


Tribuna da Bahia, Salvador
01/06/2018 09:59

   

Fui surpreendido ontem, de forma negativa, ao abrir a rede social de um colega jornalista e ver ele defendendo que a população se abstenha de votar na próxima eleição, como forma de protestar contra a classe política e os casos de corrupção e malversação do dinheiro público. No entanto, a postagem defendendo uma “greve dos eleitores” em outubro traz à tona um pensamento equivocado e crescente na conjuntura atual, que ameaça a eleição que se avizinha. Ao invés de incentivar que as pessoas deixem de expressar suas vontades nas urnas, o cidadão tem que ser estimulado a pesquisar e escolher melhor quem serão os próximos deputados, senadores, governadores e o futuro (a) presidente da República. 

Na verdade, parte do eleitor brasileiro tem que parar de posar de vítima do processo político e passar a agir como protagonista da própria história. Nunca houve um momento tão singular, tão propício para que o cidadão faça a reflexão sobre o rumo que a nação irá seguir. Dois episódios recentes, como a polêmica reforma da Previdência, e a greve dos caminhoneiros, mostraram bem as duas faces de uma mesma moeda, que evidencia a força do desejo da população. Esses episódios exigem que o que eleitor faça um exame de consciência, talvez nunca feito antes, e trace o perfil do próximo presidente que comandará os destinos da nação. É chegada a hora de começarmos a pensar nas soluções coletivas e não nos interesses pessoais na hora de escolher em quem dar o voto. A prioridade para eleger um parlamentar ou representante para o Executivo não pode ser um benefício atingido, que vai desde um emprego ou um saco de cimento, em detrimento das questões da sociedade como um todo. Comprar votos ou receber benefícios pessoais não resolve o problema do país e nos leva à manutenção de uma política clientelista, alimentada por políticos espertinhos e cidadãos com suas inúmeras carências, ávidos para serem atendidos. 

A campanha desse ano, inclusive, deve ser na palma da mão. Explico. Ao invés de esperar uma vantagem pessoal ou votar de qualquer jeito, o eleitor brasileiro deve ter a obrigação de pesquisar a vida e trajetória dos seus próximos representantes públicos, sobretudo, diante do universo de mais de 200 milhões de aparelhos celulares existentes hoje, acessíveis à internet (seja através do Wi-Fi da escola, do bar...), que facilitam um processo amplo de pesquisa sobre quem vamos colocar nas casas legislativas, nos governos estaduais e no Palácio do Planalto, em Brasília. Até mesmo aplicativos estão disponíveis, facilitando a identificação de candidatos e políticos fichas sujas ou enroscados com a justiça. 

O processo de consciência cidadã deve ser estimulado, sobretudo, contra o movimento de incentivo ao voto em branco e nulo, como forma de protesto. O detalhe é que ao se negar a dar o voto em políticos sérios, o cidadão repassa a responsabilidade da escolha para uma parcela do eleitorado que, não necessariamente, está envolvida nesse processo de conscientização e está mais vulnerável à ação de maus políticos e à compra e venda de votos. Não deixe de escolher seus próprios governantes para passar os próximos quatro anos reclamando nas redes sociais, pelas escolhas dos outros. Seja cidadão, faça sua parte. 

Até porque, agir como massa de manobra ou sem o protagonismo necessário para o processo, abre margem para que oportunistas ocupem espaços de poder, deixando o país e seus cidadãos na mesma posição de vulnerabilidade que estão hoje. Por isso se faz tão necessária a discussão desse formato do sistema político atual. 

Nós estamos praticamente concluindo um ciclo, do primeiro período da nossa jovem democracia, com um fracassado presidencialismo de coalizão, regado a corrupção e jogos de interesses escusos. Mas agora temos a possibilidade de escolher um caminho diferente a seguir. O maior desafio para essa eleição talvez seja trazer o cidadão para um processo de consciência cidadã que hoje ainda não tem, fortalecendo as instituições democráticas, livrando o país das garras de salvadores da pátria de plantão. A conferir. 


*Osvaldo Lyra é editor de Política e escreve neste espaço às sextas-feiras.

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