Falta governo na prateleira

Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
29/05/2018 08:54

   

Além da falta de combustíveis, alimentos, remédios e até oxigênio para atender casos graves de saúde, a greve dos caminhoneiros  zerou outro estoque vital para a vida do país: o de governo. De que ali,m naquela cadeira, no Palácio do Planalto, há alguém respeitado pelo povo brasileiro, a comandar os destinos da nação.

Não sou dos que tripudiam sobre o presidente Temer apenas por achar que ele é uma continuidade do governo passado, que anda metido num atoleiro de falcatruas e corrupção, e não demonstra a energia necessária para presidir o Brasil.

Temer é merecedor da alcunha de corrupto, que lhe é imputada por muitos, mas creiam ou não, como Presidente tenta arrumar as coisas dentro do possível. O caos que herdou em nossa economia é, por si só, tarefa hercúlea para qualquer governante, por mais que sua antecessora tivesse até boas intenções, dentro de sua enevoada ótica de governar.

Assim, emparedado por uma sociedade que o viu surrupiar o poder de forma que não lhe representa, embora legalmente ninguém possa retirá-lo de lá, e por um Congresso que não o enxerga como nada, Temer passou esse tempo fazendo de conta que governa, ouvindo só o fechado grupo palaciano que o cerca e com ele se locupleta das benesses do poder, sem quase nada fazer.

E, seletivo na arte de só ouvir o que ocorre além dos bem guardados portões do Planalto, não deve nem ter se dado ao cuidado de ler os manifestos que lhe foram enviados pelos caminhoneiros, os dois últimos nos dias 14 e 16 de maio. “Imagine o Brasil ficar sem transporte por uma semana!”, dizia o primeiro, enquanto o segundo já era mais incisivo: “O Estado de fragilidade financeira que se encontra o setor (de transportes) é altamente inflamável”, pontuava o alerta. 

Desdenhou, portanto, da força de uma categoria que arrisca a vida todos os dias em estradas cada vez mais mal cuidadas e tomadas por assaltantes ousados e bem armados, e que já não suportava mais ser tão espezinhada.

E não me venham depositar nos ombros das grandes transportadoras a responsabilidade pelo incitamento à greve. Podem até ter dado uma ajudinha, mas... Nenhum movimento atingiria o patamar que atingiu alimentado por pão com mortadela. Nas veias dos caminhoneiros que pararam o Brasil corre o sangue quente de quem não aguenta mais ser tripudiado e desconsiderado.

Daí, agora que os caminhões começam a rodar, ainda que sem a pujança de dias normais, fica uma clara sensação: as gôndolas e prateleiras dos mercados e farmácias vão ser pouco a pouco repostas, as feiras vão ganhar o colorido e o alarido de todo o dia, o tanque do carro abastecido, ainda que ao preço de longas filas, mas para a falta de governo não há solução de curto prazo. Será coisa de uns 215 dias até que o atual inquilino do Planalto desocupe seu gabinete.

E o melhor exemplo desse vazio de poder acaba dado pelo próprio presidente, ao beirar a inocência na tardia negociação para conter o movimento. Inocência que deveria ter ficado no passado, desde o trágico conluio com o esperto empresário Joesley Batista nos porões do Jaburu, que quase lhe leva ao olho da rua. Mas ele continua incorrigível.

Na quarta-feira, numa negociação que parecia fazer com o vento, com alguém que não falava por ninguém, cedeu a 12 reivindicações sem obter nenhuma garantia de desobstrução das estradas. Até porque os interlocutores pareciam ter muito pouca força sobre a categoria. E ainda autorizou seus ministros a anunciarem o acordo com o fim do movimento. 

Como pode um presidente da República ser tão infantil ou levado a sentar à mesa com interlocutores tão fracos?

Mas Temer sentou e teve de voltar a sentar no domingo, quando, afinal, acabou assumindo uma espécie de rendição, concedendo aos grevistas um pacote de medidas que bem sabe ele, vai sangrar ainda mais o bolso do contribuinte, tirando do preço do diesel a Cide, o PIS e a Cofins. 

O desconto será de R$ 0,46 por litro, ficando o preço do diesel congelado por 60 dias. No bolso do caminhoneiro talvez nem chegue a tanto. Mas para a sociedade, indignada com esse governo pífio, fica a sensação de alma lavada. Da desmoralização de um governo que não consegue ser ouvido, abafado pelo som das panelas.

Mesmo que sabendo que terá uma bela conta a pagar daqui para frente, até porque os fretes não serão reduzidos de preço, os produtos seguirão custando mesmo ou até mais nas prateleiras, mas há uma conta pendurada a ser paga, por mim e por você.

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