Moradores de rua tomam conta da Piedade

Eles tomam conta dos bancos, estendem roupas nas grades, destroem o jardim e acabam danificando monumentos, causando prejuízos à cidade


Tribuna da Bahia, Salvador
07/01/2018 07:00 | Atualizado há 12 dias, 21 horas e 54 minutos

   
Foto: Reginaldo Ipê

Por Yuri Abreu 

Encravada no centro da cidade, a Praça da Piedade é um local que serve como ponto de referência para aqueles transitam na região, principalmente pelos prédios históricos que estão em volta como o Gabinete Português de Leitura, o prédio da Secretaria de Segurança Pública, a Igreja que leva o mesmo nome do bairro e a Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Isso sem contar o forte comércio de rua, dois shoppings existentes ali perto e a importância histórica do equipamento.

Contudo, há alguns anos o ponto emblemático daquela região tem sido, justamente, a própria praça. Principalmente por causa dos pedintes e mendigos que fazem daquele espaço até mesmo a própria casa. Muitos deles estão espalhados pelos quatro cantos. São várias famílias, de crianças a pessoas mais velhas. 

Teve um momento em que, inclusive, a nossa equipe de reportagem foi abordada por um grupo – pedindo dinheiro – enquanto fazia um registro de um dos quatro bustos existentes que homenageiam os mártires da Revolta dos Alfaiates (ou Conjuração Baiana), ocorrida no ano de 1798.

Além disso, para muitos deles, ter uma câmara apontada na respectiva direção é um problema. Ao tentar fazer um registro da situação como tudo, o repórter fotográfico foi ameaçado por um deles. É como se eles quisessem viver assim: invisíveis, mesmo estando ali expostos a própria sorte, à vista de todos os transeuntes. 

Já com relação a parte estrutural, chama a atenção a falta de manutenção das esculturas perto de uma fonte luminosa e dos próprios bustos, requalificados no final do ano passado pela Prefeitura. Quanto à fonte em si, a mesma estava com água parada, sem funcionar e com sujeira na parte interna. Aliás, a quantidade de sujeira presente ao logo do equipamento acaba atraindo outro problema urbano: os pombos. Em alguns trechos, também é possível observar a ausência de lugares para sentar, já que o material utilizado simplesmente não existe.

Diante desse cenário, não é incomum o receio e a desconfiança por parte das pessoas que trabalham naquela região (muitos ambulantes tiram dali o “ganha pão”) ou simplesmente transitam em direção a outro ponto da capital. Tanto que é mais comum o público em geral passar por fora da praça do que cortar caminho por dentro dela, mesmo com o policiamento existente no local. Por outro lado, é muito comum observar idosos na região, que tem o lugar como ponto de encontro.

“Mesmo com os policiais, a praça está abandonada e as pessoas ficam com medo de passar por aqui. Eu, particularmente, nunca vi nenhuma abordagem, mas aí dentro tem pessoas que até usam drogas e não se intimidam com a presença dos agentes. Durante a manhã é o momento em que tem mais mendigos. Penso que deveriam fechar a praça à noite, assim como era feito antes”, disse uma pessoa que trabalha na região, mas preferiu o anonimato. “É triste ver uma praça com tanta história largada desse jeito. Acho que deveriam fazer algo semelhante ao que foi feito no Campo Grande, que fecha todos os dias à noite, além de fazer uma reforma geral. Eu fico com medo de passar por dentro para não ser abordada. Prefiro passar por fora e em grupo, se possível”, emendou a estudante Natali Batista.

Vistorias e manutenção

Em nota, a Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador (DESAL) informou que são feitas vistorias e manutenções diariamente em diversas praças de Salvador. “Sobre a Praça da Piedade, a DESAL faz vistorias constantes e manutenção. Vale lembrar que este é um dos equipamentos que mais sofrem vandalismo em Salvador, a ultima foi feita para a comemoração 7 de Setembro”, disse o órgão. Uma visita ao local foi agenda para o dia de ontem, quando seriam revistas as pendências e os serviços pertinentes a pasta.

Também por nota, a Guarda Municipal informou que a Praça da Piedade é fechada diariamente às 22h e aberta às 5h do dia seguinte, além de contar com o apoio constante de agentes lotados em viaturas na realização das rondas preventivas, que por sua vez continuam realizando a atividade no período noturno, mesmo após o fechamento dos portões.

História

Localizada no centro de Salvador, a Praça da Piedade tem algumas explicações para a origem do nome. Uma delas remonta que lá era o local onde presos seriam executados, como foi o caso dos mentores da Revolta dos Alfaiates, que completa 220 anos em 2018. Os condenados à forca eram levados a pé do Paço Municipal, onde ficava a cadeia, passavam pela Rua Carlos Gomes até chegar à Rua da Forca.

A praça está implantada próximo ao local onde, no século XVIII, constituiu-se como a principal praça da cidade. Lá, foram executados, em novembro de 1799, os quatro condenados da Conjuração Baiana, aí tendo ficado expostas a cabeça e as mãos de Luís Gonzaga das Virgens, autor de panfletos que pregavam a independência da Bahia e a abolição da escravatura. A Piedade também foi palco do embate que veio a vitimar a religiosa Joana Angélica, que lutou pela Independência da Bahia.

Também na Praça, estão expostos os bustos dos quatro mártires do movimento que também ficou conhecido como a Revolta dos Búzios. Nascido em 1775, na cidade de Santo Amaro da Purificação, Manuel Faustino dos Santos Lira foi preso, julgado e condenado no ano de 1798, com apenas 25 anos. Além de alfaiate era marceneiro. Baiano de Cachoeira, João de Deus do Nascimento também fez parte do movimento. Preso no mesmo ano que Manuel Faustino, João foi julgado e condenado a forca um ano depois, em 1799, aos 27 anos.

Natural de Salvador, Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga nasceu no ano de 1762, era soldado do 2º Regimento de Linha e soldado granadeiro do 1º Regimento de Linha. Preso em agosto de 1798, ele foi julgado e condenado um ano depois, aos 36 anos. Por último, o também soteropolitano Lucas Dantas do Amorim Torres (nascido em 1774). Marceneiro e soldado do regimento de artilharia, ele foi julgado e condenado também em 1799, aos 24 anos.

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