A criatividade dos foliões na Avenida

Com “eita” e muita coreografia baianos e turistas fizeram a festa


Tribuna da Bahia, Salvador
14/02/2018 06:45 | Atualizado há 10 dias, 15 horas e 13 minutos

   
Foto: Junior Improta / Ag Haack

Por Adilson Fonsêca

Do alto do trio da banda Psirico, o cantor Marcio Victor não fez por menos e entoou o que virou uma espécie de grito de guerra da multidão, domingo no circuito do Campo Grande: “Eita Caralho”, respondido em coro quase que uníssono de quem estava pulando com um “Eitadisgrama”. A primeira frase significa tanto uma expressão que demonstra admiração, entusiasmo, como num termo para designar o membro viril masculino, que tem correspondente no castelhano “carajo” ou “carallo” no galego.

Já “disgrama” é uma expressão do baianês que significa algo ruim, fora do contexto, um xingamento variante de desgraça, usado quando alguma coisa não está saindo como devia. Tanto uma como outra mostra o quanto o baiano é criativo quando se trata de Carnaval e usa essa criatividade com naturalidade nas suas expressões do dia a dia, como se viu na passagem do cantor Márcio Victor e respondido por quem estava pulando atrás do trio, e também por quem estava nos palanques e camarotes do Campo Grande.

A diversidade, não apenas de gênero, mas de ritmo, fez dos dois circuitos que compõem o Carnaval do centro de Salvador, o Campo Grande/Avenida (Osmar) e Centro Histórico (Batatinha), uma completa mistura, permitindo que cada um pudesse escolher que tipo de festa queria curtir. Assim é que enquanto uma multidão pulava e corria atrás dos trios entre o Campo Grande e na Avenida, até a Praça Castro Alves, outra multidão sambava pra valar na Praça da Cruz Caída, na Sé, e no Pelourinho.

E ainda sobrou tempo e espaço para o desfile irreverente e marcado por manifestações políticas, da Mudança do Garcia, na segunda-feira, que do extinto Bloco Arranca Toco, de 1926, depois Faxina do Garcia, repete a tradição de sair de do fim de linha do bairro e percorrer pouco mais de quatro quilômetros até o Campo Grande. Hoje a Mudança do Garcia virou uma espécie de reduto da política de esquerda e dos movimentos sociais e sindicais, que usam o Carnaval para levar a mensagem de protesto de forma irreverente pelas ruas.

Da pipoca aos blocos dos trios

O circuito Osmar, no Campo Grande/Avenida, voltou a ser o principal palco do Carnaval, com atrações de peso, como Daniela Mercury, Saulo, Marcio Victor, Leo Santana, Magary Lord, Harmonia do Samba, É o Tchan e Cláudia Leite. Entre o folião pipoca e os blocos com cordas, o circuito, na linguagem, do próprio prefeito ACM Neto, que pulou em meio à multidão no domingo à tarde, “estourou”. 

Quem esperou por uma das 27 atrações da segunda-feira, por exemplo, que começaram a desfilar por volta das 11 horas, não ficou parado, e foi surpreendido com a performance das meninas da Banda Didá, não apenas com o ritmo das batidas dos tambores, mas com as coreografias,m de baianas tipicamente trajadas, mas de dançarinas que realizam coreografias ligadas ás manifestações da cultura afro.

La Fúria, com cara nova, sem as letras apelativas e que denegriam a figura da mulher, com uma apologia ao sexo que motivaram ações de protestos em carnavais anteriores, arrastou a multidão e mereceu elogios de milhares de pessoas, que não se cansavam de subir e descer a avenida à cada nova apresentação que era anunciada. 

Samba e mudança

Antes mesmo da esperada Mudança do Garcia, o Carnaval já dominava o bairro do Garcia. O bloco Celebração na Palma da Mão, duas horas antes da saída da mudança, já animava o público,com muito  samba tradicional, baianas e até mesmo bonecos mamulengos.  No circuito Osmar, enquanto algumas entidades, como as Banda Didá e La Fúria aquecia o folião, a expectativa era para o desfile de As Muquiranas, puxada pela banda Psirico.

No fim de linha do Garcia, os tradicionais protestos dos movimentos sindicais e sociais começaram a se movimentar depois do meio dia, iniciando a tradicional Mudança do Garcia. Protestos contra o presidente Michel temer e contra a condenação do ex-presidente Lula foram as principais atrações, dando o tom político às manifestações que foram da política à segurança pública, da Previdência Social, da Reforma Trabalhista.

Na ponta do circuito Osmar e já adentrando pára o Circuito batatinha, no Centro Histórico, o público lotou a Praça Municipal para acompanhar o Concurso de Fantasia LGBT, organizado pelo Grupo Gay da Bahia. Ali perto, na praça da Sé , o domingo foi cheio no espaço da Cruz Caída, palco também do samba tradicional. Com seis atraçõ0es, baianos e turistas mostraram o gingado e sambaram ao som do partido alto e do pagode romântico, com canções como "Ô Irene" até "Ensaboado". 

Compartilhe       

 





 

Notícias Relacionadas